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“Eu podia chamar-te Pátria minha/dar-te o mais lindo nome português (…)”

“(…) o mais lindo nome português”: talvez, “alma”, talvez “mãe”. “Alma mater”- expressão usada na antiga Roma com o significado de “mãe que alimenta”, num tributo às deusas mães dos romanos: Ceres, Vénus, Cibele… Mais tarde, já no cristianismo medieval, a mesma expressão passou a servir de referência à Virgem Maria, mãe de Jesus e de todos os que nEle creem. Depois, os poetas latinos conferiram-lhe um sentido mais abrangente, empregando-a no sentido de “Pátria”, pela conotação de abrigo, nutrição e defesa dos cidadãos.

E claro que nos ocorre aqui a tão conhecida frase de Fernando Pessoa – para alguns, tão gasta que já parece um aforismo – posta na boca do seu heterónimo Bernardo Soares, no Livro do Desassossego: “Minha Pátria é a língua portuguesa”.

Sabemos que esta afirmação tem muito mais a dizer do que parece e que nem sequer parece a mesma coisa a todos os que a citam. Não cairemos, portanto, na tentação de pretender abordar a complexidade semântica que encerra. É, no entanto, inegável que a referência em simultâneo a duas realidades tão fundamentais e definidoras de qualquer pessoa: a (sua) pátria e a (sua) língua, as aproxima aqui, a ponto de, por um lado, quase se confundirem, ou, por outro, de fazer pensar que a Fernando Pessoa só a língua interessava e não o país de que era expressão. Todavia, sentir a língua como Pátria sua/nossa não é negar a nação, mas reconhecê-la como   lugar de identificação e de pertença, por cuja integridade será sempre justo lutar.

Berço, casa, destino – lugares e tempos da nossa existência em que, na língua e pela língua, nos construímos, encontramos e reconhecemos: regaço, abrigo, presença, voz, pão e leite e água; fome e sede saciadas- Mãe. A língua é mãe: “Mátria”. Assim preferiu chamar-lhe Natália Correia, a grande escritora açoriana, ao intitular uma obra publicada em 1968 e, mais tarde, uma série de comentários na RTP.

Vai mais longe o cantor brasileiro Caetano Veloso ao dizer: “A língua é a minha pátria/, e eu não tenho pátria, tenho mátria / E quero frátria”.

                Nesta poética e inovadora relação de parentesco se prova que a língua é sangue que nos corre e voz que nos soa clamando, reclamando, os laços que só o sangue gera e justifica a estremecida alegria e emoção de, num lugar estranho, de língua mais estranha ainda, ouvir uma qualquer palavra que reconhecemos como nossa: e somos, então, um pouco menos estrangeiros, e sentimo-nos um pouco menos sós, porque ali por perto há um irmão que não conhecíamos e que na confusão da Babel das viagens se nos revela. Então, um involuntário sorriso e um olhar de cumplicidade nos surgem, fraternos, e às vezes a palavra lavra inesperados e férteis terrenos.

                Houve, no princípio, um Verbo. O Verbo …, que nos criou e nos deu sentido, dando sentido às coisas, porque o verbo, a palavra, é o poder ativo sobre as coisas, que só depois de nomeadas existem. Cheias desse sopro divino, chegam-nos, de longe, carregando o peso da História coletiva e das suas histórias individuais, as palavras, todas as palavras, as que usamos, as que deixámos de usar (algumas por terem morrido, outras por terem passado de moda) e, de alguma maneira, preparando-nos para as muitas que ainda hão de vir, fruto da criatividade de quem sabe e gosta de lidar com elas, de necessidades novas, de empréstimos que nos esquecemos de devolver… De onde vêm e para onde vão, não trata neste caso a Filosofia, antes a Filologia, a “ciência que tem por objetivo estudar a língua através de textos escritos” e que, ao fazê-lo, mais do que dizer das palavras, diz de nós, com tudo o que nos define e nos explica. Na dinâmica que a caracteriza vivem as palavras que são também a nossa vida, com os nossos costumes e com as nossas diferenças, das quais não devemos nunca ter vergonha, sob pena de atentarmos contra a nossa autenticidade, naturalmente tidos em conta os contextos em que são produzidas. “A minha Pátria é a minha língua portuguesa”, prefere dizer Mia Couto. Compreendemo-lo. Subscrevemo-lo. Falamos de variedades: de pronúncias específicas de lugares específicos, de sotaques, de regionalismos (Se ao bife calham bem as batatas fritas, com o atum do S. João sabem melhor as semilhas com orégãos…) e até de algumas construções sintáticas preferencialmente usadas no “madeirense”, caso da perifrásticas com gerúndio, muito mais frequentes e talvez também mais expressivas do que as formadas por infinitivo precedido da preposição “a”. (“Eu estou lendo” sugere-nos muito mais a duração, o desenvolvimento, o processo do que “Eu estou a ler”.). Não se confunda, porém, o gosto bairrista das palavras com o inaceitável culto do erro lexical, semântico, morfológico, sintático ou, até, social (Sim, porque as palavras também têm um lugar à mesa e direito ao salão, à escola, à igreja, tal como à rua e ao estádio de futebol…) em nome de um desajeitado “Eu cá sempre disse assim!” Se de erro se tratar, procuremos, conscientemente, corrigi-lo, com a humildade a que a sabedoria socratiana nos obriga. E todo o tempo é tempo de o ir fazendo.

                Entretanto, e para compreendermos melhor o presente onde somos e falamos, recuemos na busca dos traços comuns entre o agora e o antigamente, comparando o rosto atual da nossa língua-mãe com o retrato da nossa língua- avó e o da língua-avó com o da mãe dela, até onde for possível encontrar memória da nossa criação.

Afinal, hoje, dia internacional da Língua Materna, é tão-só mais um dia em que através da nossa nos afirmamos, afirmando essa talvez ilegítima posse, se nos lembrarmos das palavras de Eduardo Lourenço: “Uma língua não é de ninguém, mas nós não somos ninguém sem uma língua que fazemos nossa.”

                 No respeito e no amor que nos merece, chamemos-lhe, então, “Mátria”, porque, tal como em tudo na vida, também nas coisas da língua, e entre as grandes palavras, “Mãe” é, de  todas, a maior.

                                                                                                                        Rui Duarte Pereira

 

 

A Língua Portuguesa: Uma Pátria Imensa

  1. Entro no táxi e atendo o telemóvel. Quando termino, o taxista sorri e cumprimenta. Bom dia! Era filipino. Mas a mulher era moçambicana, tinha três filhos, e lá em casa entendiam-se todos com as palavras que agora trocávamos.
  2. Entro numa loja de CD’s e escuto o hino do Benfica em mandarim. A surpresa é tanta que pergunto se têm o hino do Sporting. O “não” foi-me dito em português, por um chinês sorridente com sotaque brasileiro. Tinha estudado na Universidade de S. Paulo durante o tempo em que os pais trabalharam no Brasil.
  3. Santiago do Chile. No final de uma conferência surgem três o quatro perguntas. Uma delas, pela boca de um jovem de palavra escorreita e bem lusitana. Era filho de mãe chilena e pai português.
  4. Às portas do Sara. Entro com dois colegas numa tasca. Pedimos águas e ficamos a falar. O comerciante serve-nos com um sorriso: “O que fazem três portugueses neste lugar do Inferno?” Não éramos três. Ele nascera em Braga e partira para a África bem cedo. Depois de Angola e Moçambique acostara ali, pai de quatro putos sudaneses, com os quais falava a Língua materna.

         Passados tantos anos continuo a encontrar-me com esta Pátria imensa que me diz “bom dia” em português- Somos duzentos e cinquenta milhões a dizer “amo-te”, com a mesma emoção em todos os fusos horários do planeta.

         Não creio que tenha sido Camões, Saramago, Padre António Vieira ou Fernando Pessoa a produzirem a imensidão de falares, a partir deste pequeno ventre encostado ao Atlântico. De tantos milhões, julgo que a maioria nunca leu um livro nem sabe escrever. Mas são o resultado de séculos de História, de diáspora com e sem rumo, construindo um dos mais importantes activos da Humanidade.

            Quanto vale este poderoso bem na contabilidade do que Portugal deve e tem a receber? Quanto vale pertencermos a um pequeno País que fez da sua Língua uma das mais importantes do Mundo? Quanto vale, na folha de excel, este bem cultural, histórico e identitário?

            Temos por hábito ignorar as nossas grandezas para nos recolhermos no lamento das nossas misérias. Ouvimos falar em crescimento, mas não se percebe com será isso possível se ignorarmos o nosso mais poderoso activo para saltar desta e de outras crises. Mas duzentos e cinquenta milhões de almas a falar em português é muito mais do que um “imenso mercado”. Num tempo em que a tendência é massificar, dissolvendo-se nações e povos na aritmética dos números, a Língua é a afirmação de identidade que investidores, trabalhadores, escritores, professores, electricistas, mães, pais todos temos como um cimento que nos une. E se nos une, fortalece-nos.

            Eça de Queirós ironizava com sarcasmo: “Se fosse o peralta, Lisboa era Marrocos”. Hoje os peraltas usam os anglicanismos para mitigar a vergonha de pertencerem a esta Pátria imensa. Mesmo aqueles que são eleitos e representam Portugal descem os degraus da grandeza que receberam como herança para discursar em inglês. Com todo o respeito pelo inglês, jamais ouviremos uma rainha ou um primeiro-ministro britânico fazer o mesmo.

            O poder da Língua é indiferente a este “peraltismo” medíocre e indigno. É uma dádiva inscrita na eternidade dos sonetos de Camões, na intensidade dramática de Jorge Amado ou na universalidade de Pessoa. Ao olhar os séculos já percorridos, sabendo que, neste momento, milhões e milhões de seres se cumprimentam, negoceiam, labutam, amam, nascem e morrem em português, não desisto de perguntar: quanto vale, na folha de excel, a Língua Portuguesa?

Francisco Moita Flores

NOTA: O autor continua a escrever segundo a chamada norma antiga.

 

 

Felicidade Clandestina

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser. “Entendem? Valia mais do que me dar o livro: pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

   

                                                                                                      Clarice Lispector, O Primeiro Beijo

 

 

 

 

 

 

 

 

 Rubrica - “Palavras Vivas” – Projeto “Ler com Amor”

 

 

Poema escolhido Marco Catarino:

 

Regresso 

Regresso às fragas de onde me roubaram.

Ah! Minha serra, minha dura infância!

Como os rijos carvalhos me acenaram.

Mal eu surgi, cansado, na distância.

 

Cantava cada fonte á sua porta:

O poeta voltou!
Atrás ia ficando a terra morta

Dos versos que o desterro esfarelou.

 

Depois o céu abriu-se num sorriso,

E eu deitei-me no colo dos penedos

A contar aventuras e segredos

Aos deuses do meu velho paraíso.

                                       Miguel Torga.

 

 

Poema escolhido por Edite Andrade:

PELE

Quem foi que à tua pele

 conferiu esse papel
de mais que tua pele

 ser pele da minha pele

                                                              

       David Mourão - Ferreira

 

                 

Poema escolhido por Sandro Nóbrega:

Quando

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

        Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Dia do Mar'

 

 

Poema selecionado por Maria Paula Pestana Gonçalves:

Abre-te, Primavera!
Tenho um poema à espera
Do teu sorriso.
Um poema indeciso
Entre a coragem e a covardia.
Um poema de lírica alegria
Refreada,
A temer ser tardia
E ser antecipada.
Dantes, nascias
Quando eu te anunciava.
Cantava,
E no meu canto acontecias
Como o tempo depois te confirmava.
Cada verso era a flor que prometias
No futuro sonhado…
Agora, a lei é outra: principias,
E só então eu canto confiado.

                 Miguel Torga

 

 

Escolhi este pequeno poema de Fernando Sabino, um poeta brasileiro de quem gosto bastante.

Poema escolhido por Vanda Marques:

"De tudo ficaram três coisas...

A certeza de que estamos começando...

A certeza de que é preciso continuar...

A certeza de que podemos ser interrompidos

antes de terminar...

Façamos da interrupção um caminho novo...

Da queda, um passo de dança...

Do medo, uma escada...

Do sonho, uma ponte...

Da procura, um encontro!"

Fernando Sabino, O Encontro Marcado

 

Poema escolhido por Miguel Fonseca:

De tanto olhar o sol,
queimei os olhos,
De tanto amar a vida enlouqueci.
Agora sou no mundo esta negrura.
À procura
Da luz e do juízo que perdi.

     Miguel Torga

 

 

Poema escolhido por Sónia Abreu Belo:

 

O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,

tira-me o ar, mas não

me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,

a lança que desfolhas,

a água que de súbito

brota da tua alegria,

a repentina onda

de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso

com os olhos cansados

às vezes por ver

que a terra não muda,

mas ao entrar teu riso

sobe ao céu a procurar-me

e abre-me todas

as portas da vida.

Meu amor, nos momentos

mais escuros solta

o teu riso e se de súbito

vires que o meu sangue mancha

as pedras da rua,

ri, porque o teu riso

será para as minhas mãos

como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,

teu riso deve erguer

sua cascata de espuma,

e na primavera, amor,

quero teu riso como

a flor que esperava,

a flor azul, a rosa

da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,

do dia, da lua,

ri-te das ruas

tortas da ilha,

ri-te deste grosseiro

rapaz que te ama,

mas quando abro

os olhos e os fecho,

quando meus passos vão,

quando voltam meus passos,

nega-me o pão, o ar,

a luz, a primavera,

mas nunca o teu riso,

porque então morreria.

                                        Pablo Neruda

 

 

Poema escolhido pelos colegas Michelle Costa e Idalécio Antunes: 

 Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...

É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...

É seres alma, e sangue, e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!

 Florbela Espanca

 

 

Poema escolhido por Nuno Sousa:

Quando vier a Primavera, 

Se eu já estiver morto, 

As flores florirão da mesma maneira 

E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. 

A realidade não precisa de mim. 

Sinto uma alegria enorme 

Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma 

Se soubesse que amanhã morria 

E a Primavera era depois de amanhã, 

Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. 

Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? 

Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; 

E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. 

Por isso, se morrer agora, morro contente, 

Porque tudo é real e tudo está certo. 

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. 

Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. 

Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 

O que for, quando for, é que será o que é. 

Alberto Caeiro

heterónimo de Fernando Pessoa

 

 

Poema escolhido por Rui Duarte:

(Porque

“Para escrever um poema basta amar as palavras.”

                                                                         Ruy Belo)

De todas as palavras escolhi água

porque lágrima, chuva, porque mar

porque saliva, bátega, nascente

porque rio, porque sede, porque fonte.

De todas as palavras escolhi dar.

De todas as palavras escolhi flor

porque terra, papoila, cor, semente

porque rosa, recado, porque pele

porque pétala, pólen, porque vento.

De todas as palavras escolhi mel.

De todas as palavras escolhi voz

porque cantiga, riso, porque amor

porque partilha, boca, porque nós

porque segredo, água, mel e flor.

E porque poesia e porque é Deus

de todas as palavras escolhi dor.

                                                  Rosa Lobato de Faria

 

Poema escolhido por Fernanda Araújo:

Rosas

                                 Rosa! És a flor mais bela e mais gentil

                                 Entre as flores que a natureza encerra,

                                 Bendita sejas tu, ó mês de Abril

                                 Que de rosas inundas toda a terra!

                                 Brancas, vermelhas ou da cor sombria

                                 Do desespero e do pesar mais profundo,

                                 Sois símbolos d’amor e d’alegria

                                 Vós sois a obra-prima deste mundo.

 

                                  Ao ver-vos tão bonitas, tão mimosas

                                  Esqueço a minha dor, minha saudade

                                  Pra só vos contemplar, ó orgulhosas.

                                  Eu abençoo então a natureza

                                  E curvo-me ante vós com humildade

                                  Ó rainhas da graça e da beleza!

                                                                         Florbela Espanca

 

 

Poema escolhido por Maria Adriana Fernandes:

ESPERANÇA

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

                                                                                      Mário Quintana

 

 

Poema escolhido por Emília Jordão:

Os poemas são pássaros 

Os poemas são pássaros que chegam

não se sabe de onde e pousam

no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo

como de um alçapão.

Eles não têm pouso

nem porto;

alimentam-se um instante em cada

par de mãos e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,

no maravilhado espanto de saberes

que o alimento deles já estava em ti...

.

                                             Mário Quintana

 

 

Poema escolhido por Marco Ferreira:

Cá vai um muito curtinho, pois não é preciso dizer muito para muito dizer!

"O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.”

                                           Fernando Pessoa    

 

Poema recolhido por Carlota Andrade:

Para Sempre 

Por que Deus permite
Que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite
É tempo sem hora
Luz que não apaga
Quando sopra o vento
E chuva desaba
Veludo escondido
Na pele enrugada
Água pura, ar puro
Puro pensamento
Morrer acontece
Com o que é breve e passa
Sem deixar vestígio
Mãe, na sua graça
É eternidade
Por que Deus se lembra
- Mistério profundo -
De tirá-la um dia?
Fosse eu rei do mundo
Baixava uma lei:
Mãe não morre nunca
Mãe ficará sempre
Junto de seu filho
E ele, velho embora,
Será pequenino
Feito grão de milho

          Carlos Drummond de Andrade

 

Poema escolhido por Olga Andrade:

Resistência

Ninguém me castra a poesia

se debruça e me põe vendas

Censura aquilo que escrevo

nem me assombra os poemas.

Ninguém me paga os versos

nem amordaça as palavras

na invenção de voar

por entre o sonho e as letras.

Ninguém me cala na sombra

Deitando fogo aos meus livros

Me ameaça no medo

Ou me destrói e algema.

Ninguém me aquieta a escrita

na criação de si mesma

nem assassina a musa

que dentro de mim se inventa.

                                       Maria Teresa Horta

 

 12

CONTAS

Uma noite, quando a noite não acabava,

contei cada estrela no céu dos teus olhos; 

e nessa noite em que nenhum astro brilhava 

deste-me sóis e planetas aos molhos. 

Nessa noite, que nenhum cometa incendiou, 

fizemos a mais longa viagem do amor; 

no teu corpo, onde o meu encalhou, 

fiz o caminho de náufrago e navegador.

Tu és a ilha que todos desejaram,

a lagoa negra onde sonhei mergulhar, 

e as lentas contas que os dedos contaram

por entre cabelos suspensos do ar - 

nessa noite em que não houve madrugada 

desfiando um terço sem deus nem tabuada.

Nuno Júdice, Rimas e Contas, Poesia reunida 1967-2000, Dom Quixote,2000

 

Quando eu não te tinha

Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo...
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima.
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor...
Tu não me tiraste a Natureza...
Tu não me mudaste a Natureza...
Trouxeste-me a Natureza para ao pé de mim.
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.
Só me arrependo de outrora te não ter amado.

(Alberto Caeiro – Heterónimo de Fernando Pessoa)

         (pesquisa de Marco Brazão CEF2) 

                                         

Amar 

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e mal amar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade

   (pesquisa de Henrique Tenente CEF2)

 

 

Fanatismo

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !

Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !

 

E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."

(Florbela Espanca)

 

                                                     (pesquisa de Beatriz Gouveia CEF2)        

 

Soneto do amor total

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

(Vinícius de Moraes)

(pesquisa de Leandro Jesus CEF2)

 

 

A inflorescência, a mulher e o amor

É sempre a mulher, é sempre ela
é sempre esse ser que vê a vida
pela janela e a pinta em aguarela
com tons violeta, amor ou magenta.

É sempre a mulher que bate o pé e
se levanta entre a multidão e só não
encanta quem é cativo da desunião.

É sempre ela, a mulher toda ela, tão
bela de coração ardente de antepassado
vivo de ocidente a oriente, toda ela.

É sempre ela, essa mulher tão singela
que vence forças maiores do que ela
que combate poderes e que se revela
na inflorescência de uma planta qualquer.

     (Autor desconhecido)  Pesquisa de Bruna Faria CEF2

        “A poesia não deixa de ser uma maneira de falar sozinho. Mas a solidão do poeta se comunica com outras solidões e é assim que se estabelece o fluxo da poesia. […] Há um grande número de poetas que são os leitores que gostam de poesia. Só que eles não sabem escrever e a gente fala por eles. Poesia não é coisa do outro mundo.”

                                                Mário Quintana, “A poesia é uma maneira de falar sozinho”, entrevista

Escrever

Se eu pudesse havia de transformar as palavras em clava.
Havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante, sem música.
Como um gesto, uma pancada brusca e sóbria.
Para quê todo este artifício da composição sintática e métrica?
Para quê o arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras, pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo.
Vejo, admiro, desejo?
Ou sim ou não.
E como isto continuando.

E gostava para as infinitamente delicadas coisas do espírito…
Quais, mas quais?
Gostava, em oposição com a braveza do jogo da pedrada, do tal ataque às
coisas certas e negadas…
Gostava de escrever com um fio de água.
Um fio que nada traçasse.
Fino e sem cor, medroso.

Ó infinitamente delicadas coisas do espírito!
Amor que se não tem, se julga ter.
Desejo dispersivo.
Vagos sofrimentos.
Ideias sem contorno.
Apreços e gostos fugitivos.
Ai! o fio da água, o próprio fio da água sobre vós passaria,
transparentemente?
Ou vos seguiria humilde e tranquilo?

                                               Irene Lisboa

Mulher

Um aroma suave
exalou das mãos do Criador,
quando seus olhos contemplaram
a solidão do homem no Jardim!
Foi assim:
o Senhor desenhou
o ser gracioso, meigo e forte,
que a sua imaginação perfeita produziu.
Um novo milagre:
fez-se carne,
fez-se bela,
fez-se amor,
fez-se na verdade como Ele quer!
O homem colheu a flor,
beijou-a, com ternura,
chamando-a, simplesmente,
Mulher!

  

Ivone Boechat

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