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Com palavras criamos textos. Informativos, narrativos, poéticos…

Cada qual tem uma intenção de comunicação diferente. É caso para dizer que vivemos num mundo de palavras vivas. Mas também é verdade que, para juntá-las de modo a escrever um texto com sentido, temos de respeitar as regras gramaticais, nomeadamente as da pontuação, com a finalidade de que os leitores possam entender a mensagem que se pretende transmitir.

Por esse motivo, escolhemos, para esta semana, o “Conto Gramatical”, de Fernando Veríssimo, uma divertida história cujas personagens são os sinais de pontuação personificados.

Sabemos que as palavras são fundamentais para que o leitor compreenda o objetivo da mensagem escrita – seja o de informar, fazer voar a imaginação ou tocar a sua alma, despertando sentimentos e emoções - mas sem a respiração que a pontuação lhes confere nunca tal seria possível.

Sugerimos-lhe a leitura em voz alta do texto que hoje lhe apresentamos e verá que temos razão.

 

 

Conto Gramatical 

 

Era a terceira vez que aquele nome e aquele artigo se encontravam no elevador.

Um nome masculino, com um aspeto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular:  ela era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito subentendido, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.

O nome gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador para, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o nome, mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos.

Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e para justamente no andar do nome. Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a insinuar-se. Começaram a aproximar-se e abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula que nem uma frase simples passaria entre os dois.

Entretanto a porta abriu-se repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos aos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e frases exclamativas. O nome, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois disso, pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar e atirou--o pela janela.

Agora, quem coloca ponto final sou eu. Ou melhor: coloco dois. Um, é para não perder a mania. Outro, é porque isto é um conto rápido, e não uma oração subordinada completiva.

(Texto adaptado a partir de um conto de Fernando Veríssimo)