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Poema escolhido Marco Catarino:

 

Regresso 

Regresso às fragas de onde me roubaram.

Ah! Minha serra, minha dura infância!

Como os rijos carvalhos me acenaram.

Mal eu surgi, cansado, na distância.

 

Cantava cada fonte á sua porta:

O poeta voltou!
Atrás ia ficando a terra morta

Dos versos que o desterro esfarelou.

 

Depois o céu abriu-se num sorriso,

E eu deitei-me no colo dos penedos

A contar aventuras e segredos

Aos deuses do meu velho paraíso.

                                       Miguel Torga.

 

 

Poema escolhido por Edite Andrade:

PELE

Quem foi que à tua pele

 conferiu esse papel
de mais que tua pele

 ser pele da minha pele

                                                              

       David Mourão - Ferreira

 

                 

Poema escolhido por Sandro Nóbrega:

Quando

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

        Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Dia do Mar'

 

 

Poema selecionado por Maria Paula Pestana Gonçalves:

Abre-te, Primavera!
Tenho um poema à espera
Do teu sorriso.
Um poema indeciso
Entre a coragem e a covardia.
Um poema de lírica alegria
Refreada,
A temer ser tardia
E ser antecipada.
Dantes, nascias
Quando eu te anunciava.
Cantava,
E no meu canto acontecias
Como o tempo depois te confirmava.
Cada verso era a flor que prometias
No futuro sonhado…
Agora, a lei é outra: principias,
E só então eu canto confiado.

                 Miguel Torga

 

 

Escolhi este pequeno poema de Fernando Sabino, um poeta brasileiro de quem gosto bastante.

Poema escolhido por Vanda Marques:

"De tudo ficaram três coisas...

A certeza de que estamos começando...

A certeza de que é preciso continuar...

A certeza de que podemos ser interrompidos

antes de terminar...

Façamos da interrupção um caminho novo...

Da queda, um passo de dança...

Do medo, uma escada...

Do sonho, uma ponte...

Da procura, um encontro!"

Fernando Sabino, O Encontro Marcado

 

Poema escolhido por Miguel Fonseca:

De tanto olhar o sol,
queimei os olhos,
De tanto amar a vida enlouqueci.
Agora sou no mundo esta negrura.
À procura
Da luz e do juízo que perdi.

     Miguel Torga

 

 

Poema escolhido por Sónia Abreu Belo:

 

O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,

tira-me o ar, mas não

me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,

a lança que desfolhas,

a água que de súbito

brota da tua alegria,

a repentina onda

de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso

com os olhos cansados

às vezes por ver

que a terra não muda,

mas ao entrar teu riso

sobe ao céu a procurar-me

e abre-me todas

as portas da vida.

Meu amor, nos momentos

mais escuros solta

o teu riso e se de súbito

vires que o meu sangue mancha

as pedras da rua,

ri, porque o teu riso

será para as minhas mãos

como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,

teu riso deve erguer

sua cascata de espuma,

e na primavera, amor,

quero teu riso como

a flor que esperava,

a flor azul, a rosa

da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,

do dia, da lua,

ri-te das ruas

tortas da ilha,

ri-te deste grosseiro

rapaz que te ama,

mas quando abro

os olhos e os fecho,

quando meus passos vão,

quando voltam meus passos,

nega-me o pão, o ar,

a luz, a primavera,

mas nunca o teu riso,

porque então morreria.

                                        Pablo Neruda

 

 

Poema escolhido pelos colegas Michelle Costa e Idalécio Antunes: 

 Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...

É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...

É seres alma, e sangue, e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!

 Florbela Espanca

 

 

Poema escolhido por Nuno Sousa:

Quando vier a Primavera, 

Se eu já estiver morto, 

As flores florirão da mesma maneira 

E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. 

A realidade não precisa de mim. 

Sinto uma alegria enorme 

Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma 

Se soubesse que amanhã morria 

E a Primavera era depois de amanhã, 

Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. 

Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? 

Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; 

E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. 

Por isso, se morrer agora, morro contente, 

Porque tudo é real e tudo está certo. 

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. 

Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. 

Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 

O que for, quando for, é que será o que é. 

Alberto Caeiro

heterónimo de Fernando Pessoa

 

 

Poema escolhido por Rui Duarte:

(Porque

“Para escrever um poema basta amar as palavras.”

                                                                         Ruy Belo)

De todas as palavras escolhi água

porque lágrima, chuva, porque mar

porque saliva, bátega, nascente

porque rio, porque sede, porque fonte.

De todas as palavras escolhi dar.

De todas as palavras escolhi flor

porque terra, papoila, cor, semente

porque rosa, recado, porque pele

porque pétala, pólen, porque vento.

De todas as palavras escolhi mel.

De todas as palavras escolhi voz

porque cantiga, riso, porque amor

porque partilha, boca, porque nós

porque segredo, água, mel e flor.

E porque poesia e porque é Deus

de todas as palavras escolhi dor.

                                                  Rosa Lobato de Faria

 

Poema escolhido por Fernanda Araújo:

Rosas

                                 Rosa! És a flor mais bela e mais gentil

                                 Entre as flores que a natureza encerra,

                                 Bendita sejas tu, ó mês de Abril

                                 Que de rosas inundas toda a terra!

                                 Brancas, vermelhas ou da cor sombria

                                 Do desespero e do pesar mais profundo,

                                 Sois símbolos d’amor e d’alegria

                                 Vós sois a obra-prima deste mundo.

 

                                  Ao ver-vos tão bonitas, tão mimosas

                                  Esqueço a minha dor, minha saudade

                                  Pra só vos contemplar, ó orgulhosas.

                                  Eu abençoo então a natureza

                                  E curvo-me ante vós com humildade

                                  Ó rainhas da graça e da beleza!

                                                                         Florbela Espanca

 

 

Poema escolhido por Maria Adriana Fernandes:

ESPERANÇA

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

                                                                                      Mário Quintana

 

 

Poema escolhido por Emília Jordão:

Os poemas são pássaros 

Os poemas são pássaros que chegam

não se sabe de onde e pousam

no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo

como de um alçapão.

Eles não têm pouso

nem porto;

alimentam-se um instante em cada

par de mãos e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,

no maravilhado espanto de saberes

que o alimento deles já estava em ti...

.

                                             Mário Quintana

 

 

Poema escolhido por Marco Ferreira:

Cá vai um muito curtinho, pois não é preciso dizer muito para muito dizer!

"O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.”

                                           Fernando Pessoa    

 

Poema recolhido por Carlota Andrade:

Para Sempre 

Por que Deus permite
Que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite
É tempo sem hora
Luz que não apaga
Quando sopra o vento
E chuva desaba
Veludo escondido
Na pele enrugada
Água pura, ar puro
Puro pensamento
Morrer acontece
Com o que é breve e passa
Sem deixar vestígio
Mãe, na sua graça
É eternidade
Por que Deus se lembra
- Mistério profundo -
De tirá-la um dia?
Fosse eu rei do mundo
Baixava uma lei:
Mãe não morre nunca
Mãe ficará sempre
Junto de seu filho
E ele, velho embora,
Será pequenino
Feito grão de milho

          Carlos Drummond de Andrade

 

Poema escolhido por Olga Andrade:

Resistência

Ninguém me castra a poesia

se debruça e me põe vendas

Censura aquilo que escrevo

nem me assombra os poemas.

Ninguém me paga os versos

nem amordaça as palavras

na invenção de voar

por entre o sonho e as letras.

Ninguém me cala na sombra

Deitando fogo aos meus livros

Me ameaça no medo

Ou me destrói e algema.

Ninguém me aquieta a escrita

na criação de si mesma

nem assassina a musa

que dentro de mim se inventa.

                                       Maria Teresa Horta

 

 12

CONTAS

Uma noite, quando a noite não acabava,

contei cada estrela no céu dos teus olhos; 

e nessa noite em que nenhum astro brilhava 

deste-me sóis e planetas aos molhos. 

Nessa noite, que nenhum cometa incendiou, 

fizemos a mais longa viagem do amor; 

no teu corpo, onde o meu encalhou, 

fiz o caminho de náufrago e navegador.

Tu és a ilha que todos desejaram,

a lagoa negra onde sonhei mergulhar, 

e as lentas contas que os dedos contaram

por entre cabelos suspensos do ar - 

nessa noite em que não houve madrugada 

desfiando um terço sem deus nem tabuada.

Nuno Júdice, Rimas e Contas, Poesia reunida 1967-2000, Dom Quixote,2000

 

Quando eu não te tinha

Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo...
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima.
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor...
Tu não me tiraste a Natureza...
Tu não me mudaste a Natureza...
Trouxeste-me a Natureza para ao pé de mim.
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.
Só me arrependo de outrora te não ter amado.

(Alberto Caeiro – Heterónimo de Fernando Pessoa)

         (pesquisa de Marco Brazão CEF2) 

                                         

Amar 

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e mal amar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade

   (pesquisa de Henrique Tenente CEF2)

 

 

Fanatismo

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !

Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !

 

E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."

(Florbela Espanca)

 

                                                     (pesquisa de Beatriz Gouveia CEF2)        

 

Soneto do amor total

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

(Vinícius de Moraes)

(pesquisa de Leandro Jesus CEF2)

 

 

A inflorescência, a mulher e o amor

É sempre a mulher, é sempre ela
é sempre esse ser que vê a vida
pela janela e a pinta em aguarela
com tons violeta, amor ou magenta.

É sempre a mulher que bate o pé e
se levanta entre a multidão e só não
encanta quem é cativo da desunião.

É sempre ela, a mulher toda ela, tão
bela de coração ardente de antepassado
vivo de ocidente a oriente, toda ela.

É sempre ela, essa mulher tão singela
que vence forças maiores do que ela
que combate poderes e que se revela
na inflorescência de uma planta qualquer.

     (Autor desconhecido)  Pesquisa de Bruna Faria CEF2