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“Eu podia chamar-te Pátria minha/dar-te o mais lindo nome português (…)”

“(…) o mais lindo nome português”: talvez, “alma”, talvez “mãe”. “Alma mater”- expressão usada na antiga Roma com o significado de “mãe que alimenta”, num tributo às deusas mães dos romanos: Ceres, Vénus, Cibele… Mais tarde, já no cristianismo medieval, a mesma expressão passou a servir de referência à Virgem Maria, mãe de Jesus e de todos os que nEle creem. Depois, os poetas latinos conferiram-lhe um sentido mais abrangente, empregando-a no sentido de “Pátria”, pela conotação de abrigo, nutrição e defesa dos cidadãos.

E claro que nos ocorre aqui a tão conhecida frase de Fernando Pessoa – para alguns, tão gasta que já parece um aforismo – posta na boca do seu heterónimo Bernardo Soares, no Livro do Desassossego: “Minha Pátria é a língua portuguesa”.

Sabemos que esta afirmação tem muito mais a dizer do que parece e que nem sequer parece a mesma coisa a todos os que a citam. Não cairemos, portanto, na tentação de pretender abordar a complexidade semântica que encerra. É, no entanto, inegável que a referência em simultâneo a duas realidades tão fundamentais e definidoras de qualquer pessoa: a (sua) pátria e a (sua) língua, as aproxima aqui, a ponto de, por um lado, quase se confundirem, ou, por outro, de fazer pensar que a Fernando Pessoa só a língua interessava e não o país de que era expressão. Todavia, sentir a língua como Pátria sua/nossa não é negar a nação, mas reconhecê-la como   lugar de identificação e de pertença, por cuja integridade será sempre justo lutar.

Berço, casa, destino – lugares e tempos da nossa existência em que, na língua e pela língua, nos construímos, encontramos e reconhecemos: regaço, abrigo, presença, voz, pão e leite e água; fome e sede saciadas- Mãe. A língua é mãe: “Mátria”. Assim preferiu chamar-lhe Natália Correia, a grande escritora açoriana, ao intitular uma obra publicada em 1968 e, mais tarde, uma série de comentários na RTP.

Vai mais longe o cantor brasileiro Caetano Veloso ao dizer: “A língua é a minha pátria/, e eu não tenho pátria, tenho mátria / E quero frátria”.

                Nesta poética e inovadora relação de parentesco se prova que a língua é sangue que nos corre e voz que nos soa clamando, reclamando, os laços que só o sangue gera e justifica a estremecida alegria e emoção de, num lugar estranho, de língua mais estranha ainda, ouvir uma qualquer palavra que reconhecemos como nossa: e somos, então, um pouco menos estrangeiros, e sentimo-nos um pouco menos sós, porque ali por perto há um irmão que não conhecíamos e que na confusão da Babel das viagens se nos revela. Então, um involuntário sorriso e um olhar de cumplicidade nos surgem, fraternos, e às vezes a palavra lavra inesperados e férteis terrenos.

                Houve, no princípio, um Verbo. O Verbo …, que nos criou e nos deu sentido, dando sentido às coisas, porque o verbo, a palavra, é o poder ativo sobre as coisas, que só depois de nomeadas existem. Cheias desse sopro divino, chegam-nos, de longe, carregando o peso da História coletiva e das suas histórias individuais, as palavras, todas as palavras, as que usamos, as que deixámos de usar (algumas por terem morrido, outras por terem passado de moda) e, de alguma maneira, preparando-nos para as muitas que ainda hão de vir, fruto da criatividade de quem sabe e gosta de lidar com elas, de necessidades novas, de empréstimos que nos esquecemos de devolver… De onde vêm e para onde vão, não trata neste caso a Filosofia, antes a Filologia, a “ciência que tem por objetivo estudar a língua através de textos escritos” e que, ao fazê-lo, mais do que dizer das palavras, diz de nós, com tudo o que nos define e nos explica. Na dinâmica que a caracteriza vivem as palavras que são também a nossa vida, com os nossos costumes e com as nossas diferenças, das quais não devemos nunca ter vergonha, sob pena de atentarmos contra a nossa autenticidade, naturalmente tidos em conta os contextos em que são produzidas. “A minha Pátria é a minha língua portuguesa”, prefere dizer Mia Couto. Compreendemo-lo. Subscrevemo-lo. Falamos de variedades: de pronúncias específicas de lugares específicos, de sotaques, de regionalismos (Se ao bife calham bem as batatas fritas, com o atum do S. João sabem melhor as semilhas com orégãos…) e até de algumas construções sintáticas preferencialmente usadas no “madeirense”, caso da perifrásticas com gerúndio, muito mais frequentes e talvez também mais expressivas do que as formadas por infinitivo precedido da preposição “a”. (“Eu estou lendo” sugere-nos muito mais a duração, o desenvolvimento, o processo do que “Eu estou a ler”.). Não se confunda, porém, o gosto bairrista das palavras com o inaceitável culto do erro lexical, semântico, morfológico, sintático ou, até, social (Sim, porque as palavras também têm um lugar à mesa e direito ao salão, à escola, à igreja, tal como à rua e ao estádio de futebol…) em nome de um desajeitado “Eu cá sempre disse assim!” Se de erro se tratar, procuremos, conscientemente, corrigi-lo, com a humildade a que a sabedoria socratiana nos obriga. E todo o tempo é tempo de o ir fazendo.

                Entretanto, e para compreendermos melhor o presente onde somos e falamos, recuemos na busca dos traços comuns entre o agora e o antigamente, comparando o rosto atual da nossa língua-mãe com o retrato da nossa língua- avó e o da língua-avó com o da mãe dela, até onde for possível encontrar memória da nossa criação.

Afinal, hoje, dia internacional da Língua Materna, é tão-só mais um dia em que através da nossa nos afirmamos, afirmando essa talvez ilegítima posse, se nos lembrarmos das palavras de Eduardo Lourenço: “Uma língua não é de ninguém, mas nós não somos ninguém sem uma língua que fazemos nossa.”

                 No respeito e no amor que nos merece, chamemos-lhe, então, “Mátria”, porque, tal como em tudo na vida, também nas coisas da língua, e entre as grandes palavras, “Mãe” é, de  todas, a maior.

                                                                                                                        Rui Duarte Pereira

 

 

A Língua Portuguesa: Uma Pátria Imensa

  1. Entro no táxi e atendo o telemóvel. Quando termino, o taxista sorri e cumprimenta. Bom dia! Era filipino. Mas a mulher era moçambicana, tinha três filhos, e lá em casa entendiam-se todos com as palavras que agora trocávamos.
  2. Entro numa loja de CD’s e escuto o hino do Benfica em mandarim. A surpresa é tanta que pergunto se têm o hino do Sporting. O “não” foi-me dito em português, por um chinês sorridente com sotaque brasileiro. Tinha estudado na Universidade de S. Paulo durante o tempo em que os pais trabalharam no Brasil.
  3. Santiago do Chile. No final de uma conferência surgem três o quatro perguntas. Uma delas, pela boca de um jovem de palavra escorreita e bem lusitana. Era filho de mãe chilena e pai português.
  4. Às portas do Sara. Entro com dois colegas numa tasca. Pedimos águas e ficamos a falar. O comerciante serve-nos com um sorriso: “O que fazem três portugueses neste lugar do Inferno?” Não éramos três. Ele nascera em Braga e partira para a África bem cedo. Depois de Angola e Moçambique acostara ali, pai de quatro putos sudaneses, com os quais falava a Língua materna.

         Passados tantos anos continuo a encontrar-me com esta Pátria imensa que me diz “bom dia” em português- Somos duzentos e cinquenta milhões a dizer “amo-te”, com a mesma emoção em todos os fusos horários do planeta.

         Não creio que tenha sido Camões, Saramago, Padre António Vieira ou Fernando Pessoa a produzirem a imensidão de falares, a partir deste pequeno ventre encostado ao Atlântico. De tantos milhões, julgo que a maioria nunca leu um livro nem sabe escrever. Mas são o resultado de séculos de História, de diáspora com e sem rumo, construindo um dos mais importantes activos da Humanidade.

            Quanto vale este poderoso bem na contabilidade do que Portugal deve e tem a receber? Quanto vale pertencermos a um pequeno País que fez da sua Língua uma das mais importantes do Mundo? Quanto vale, na folha de excel, este bem cultural, histórico e identitário?

            Temos por hábito ignorar as nossas grandezas para nos recolhermos no lamento das nossas misérias. Ouvimos falar em crescimento, mas não se percebe com será isso possível se ignorarmos o nosso mais poderoso activo para saltar desta e de outras crises. Mas duzentos e cinquenta milhões de almas a falar em português é muito mais do que um “imenso mercado”. Num tempo em que a tendência é massificar, dissolvendo-se nações e povos na aritmética dos números, a Língua é a afirmação de identidade que investidores, trabalhadores, escritores, professores, electricistas, mães, pais todos temos como um cimento que nos une. E se nos une, fortalece-nos.

            Eça de Queirós ironizava com sarcasmo: “Se fosse o peralta, Lisboa era Marrocos”. Hoje os peraltas usam os anglicanismos para mitigar a vergonha de pertencerem a esta Pátria imensa. Mesmo aqueles que são eleitos e representam Portugal descem os degraus da grandeza que receberam como herança para discursar em inglês. Com todo o respeito pelo inglês, jamais ouviremos uma rainha ou um primeiro-ministro britânico fazer o mesmo.

            O poder da Língua é indiferente a este “peraltismo” medíocre e indigno. É uma dádiva inscrita na eternidade dos sonetos de Camões, na intensidade dramática de Jorge Amado ou na universalidade de Pessoa. Ao olhar os séculos já percorridos, sabendo que, neste momento, milhões e milhões de seres se cumprimentam, negoceiam, labutam, amam, nascem e morrem em português, não desisto de perguntar: quanto vale, na folha de excel, a Língua Portuguesa?

Francisco Moita Flores

NOTA: O autor continua a escrever segundo a chamada norma antiga.